Não é preciso desmerecer Fla ou Palmeiras para valorizar o outro

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Não é preciso desmerecer Fla ou Palmeiras para valorizar o outro
Não é preciso desmerecer Fla ou Palmeiras para valorizar o outro
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João Gomes dando carrinho em Flamengo x Palmeiras – Foto: Alexandre Vidal

GLOBO ESPORTE: Há alguns anos, enquanto esperava um voo de conexão nos Estados Unidos, durante uma viagem profissional, comprei a versão em inglês de um dos muitos livros publicados sobre Pep Guardiola: “Another Way of Winning – The Biography”, do jornalista espanhol Guillem Balague.

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Com prefácio de Sir Alex Ferguson, o livro oferece uma excelente explicação dos métodos de trabalho de Guardiola e como ele encontrou uma outra forma de vencer ao formar o maior time do Barcelona em todos os tempos e um dos maiores da história.

Em um dos trechos do prefácio, Ferguson destaca que “Guardiola levou certas áreas a um outro nível – como pressionar a saída de bola – e o estilo de jogo disciplinado do Barcelona e a ética de trabalho tornaram-se marca registrada de todos os times dirigidos por ele”.

Ferguson também encontrou suas maneiras de vencer, com métodos diferentes. Como fizeram Michels, Cruyff, Mourinho, Zidane, Klopp, Sacchi, Del Bosque e grandes treinadores do futebol europeu.

No Brasil, houve o mesmo processo, com nomes históricos como Feola, os irmãos Moreira, Tim, Flávio Costa, Ênio Andrade, Brandão, Minelli, Luxemburgo, Felipão, Muricy e muitos outros.

Não existe uma única forma de vencer.

Nem a melhor forma de vencer, apenas porque atende aos anseios particulares de críticos, torcedores, dirigentes.

O time mais vencedor do Brasil na temporada de 2020 talvez não satisfaça o gosto de ver futebol de muita gente. Mas o Palmeiras tem sua maneira de vencer e ela precisa ser respeitada e reconhecida.

O Flamengo, que ganhou duas taças importantes na temporada 2020, é um time mais talentoso que o Palmeiras. Mas o Verdão é mais competitivo dentro de seu estilo.

Essa é a grande riqueza do futebol: pode ser jogado de diversas formas, e é possível vencer com todas elas.

É impossível replicar ideias de jogo com atletas diferentes. Pode-se adaptar o conceito, mas a execução sempre dependerá das características individuais dos jogadores.

A Alemanha campeã mundial de 2014 foi beber da fonte da Espanha de 2008/2010/12. A base do conceito estava lá, mas a execução foi diferente porque as características individuais dos atletas eram outras.

Guardiola foi um no Barça e outro no Bayern e no City.

Não concordo com a ideia de que o futebol deva ser jogado com apenas um modelo em mente, uma padronização tática global que transforme em pária quem jogue diferente.

Flamengo e Palmeiras estabeleceram domínio no futebol nacional recentemente, com formas distintas de jogo. Não quer dizer que uma seja melhor que a outra. Não há paradigmas a serem seguidos.

Seja qual for o sistema de jogo e o esquema tático (coisas diferentes), em qualquer time de futebol profissional do mundo o que se busca é criar espaços para que as situações de jogada individual, o famoso mano a mano, aconteçam. No que se refere ao gol, o processo coletivo trabalha para que uma definição aconteça de forma individual. Não há gol com mais de um autor. Mas a jogada, sim.

Fiquemos nos times dominantes do Brasil. O Mengão busca o espaço com mais posse de bola e posicionamento avançado, jogando no campo do adversário, pressionando para provocar o erro e recuperar a bola perto do gol rival. Claro que também utiliza a velocidade incrível de seus atacantes para o contragolpe bem abastecido por meias criativos. São conceitos gerais de uma visão particular. Muita gente pode ver de outra forma.

O Palmeiras, embora também busque a pressão alta em alguns momentos, é um time que joga a isca para o adversário. Finge estar sendo dominado, mas tem o total controle do momento em que acionará sua transição ofensiva mortal, tanto em ligação direta como em toques rápidos e aproximação dos meias. Tem uma última linha defensiva bem posicionada, mas que cometeu alguns erros individuais durante a temporada. De novo: minha leitura.

É preciso reconhecer as diferentes maneiras de ganhar campeonatos.

Não se ganha tudo que o Palmeiras ganhou em uma temporada desafiadora sem ter méritos e qualidades a serem exaltadas.

Além do gosto e da preferência estilística de cada um.

Que venha a Supercopa do Brasil, para termos a alegria de ver estilos e ideias diferentes se confrontado, enriquecendo o espetáculo e a competição!

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