Se é para jogar isso aí, para que gastar milhões?

140
Desde 2019, Gabigol e Bruno Henrique marcaram quase metade dos gols do Fla
Desde 2019, Gabigol e Bruno Henrique marcaram quase metade dos gols do Fla
Publicidade

ENTRE AS CANETAS: Por Ricardo Gonzalez

Nos primeiros tempos de Renato Gaúcho como técnico do Flamengo, as goleadas voltaram a empolgar a torcida e a mídia, e o treinador passou a ser incensado como o melhor seguidor da era Jorge Jesus. Não era tão simples de perceber que, com Gabigol, Bruno Henrique, Arrascaeta, Everton Ribeiro, Filipe Luis e os demais titulares motivados e felizes, bastava Renato deixar esse time solto. Ele fez isso. E com todos os craques à disposição, o Flamengo só não é muito melhor do que Atlético-MG. Só que… os craques começaram a cansar com a maratona, a se lesionar, a tomar cartões. Além disso, os torneios começaram a afunilar. E aí, precisando recorrer a Vitinho, Michael, Andreas, Renê, Matheusinho, Thiago Maia, o Flamengo passou a precisar de estratégia. De tática. De entrosamento. De alternativas de jogo. De treinador. E Renato, nesta hora, está fracassando vergonhosamente.

Publicidade

E tão frágil quanto a preparação do time neste momento crucial e decisivo da temporada, são as justificativas do comandante. Ora, se “todos jogam finais contra o Flamengo”, se para parar o super-Flamengo decantado em prosa e verso basta colocar duas linhas inteligentes de marcação severa à frente da área, então de que adianta gastar milhões de reais – ou seja lá a moeda que for – em um elenco desses? Se é para não criar nada como não criou contra Cuiabá e Fluminense, e se é para tomar gol pelo alto em dois terços dos jogos, coloca o sub-20 em campo….

Renato obviamente tem atenuantes. O primeiro é o pouco tempo que tem à frente desse time. Pegou o Flamengo no meio do Brasileiro, não teve pré-temporada e tem pouco tempo para treinar. Além disso, são fatos o cansaço do único elenco que está (ou estava até este sábado) brigando por três competições e as lesões musculares cada vez mais frequentes. Também fatos são os gols que o time sistematicamente toma. E Renato não trouxe Léo Pereira, Gustavo Henrique, Bruno Viana, jogadores que acabam entrando porque Rodrigo Caio e David Luiz não conseguem sequência por questões clínicas – e que cometem erros infantis, como os muitos gols em cima de Renê e o drible patético que Gustavo Henrique levou de Abel Hernandez. Para fechar a argumentação dos advogados de defesa, Arrascaeta é insubstituível. Na ausência de Gabigol, há Pedro. Na de Bruno Henrique, há MIchael. Na de Everton Ribeiro, há Vitinho. Na de Arrasca, não há ninguém.

As substituições, claro, provocam queda de rendimento, porque os substitutos até mantém a característica do time, mas nem de longe a mesma qualidade. Só que, insisto, num elenco milionário, estelar, que alguns classificam como europeu, é inadmissível que um time simplesmente trave, pare, desligue diante de adversários bem fechados. Não há criação. Não há infiltração. Não há triangulação. E contra times fechados, não há transição ofensiva rápida, não há profundidade. Isso tudo vem com treino. Se não há tempo para treino, tem de haver vídeo, conversa… tem de haver alguma fórmula de que o time reserva do Flamengo milionário consiga fazer frente a Cuiabá, Athlético-PR e Fluminense.

Ninguém pode ser leviano de garantir que são problemas definitivos ou que Renato não está enxergando o problema. O tempo vai mostrar isso. Se das três competições o Flamengo ganhar duas, estará excelente. Perder o Brasileiro, depois de ganhar dois consecutivos, para um timaço como o do Atlético-MG não seria motivo para crise. Se das três competições o Flamengo ganhar apenas uma, desde que essa “uma” seja a Libertadores, a temporada terá sido positiva. Qualquer coisa diferente disso, para o nível de investimento do clube, será fracasso. E a conta será entregue a Renato.

Que terá, nesse caso, de explicar: se é para jogar isso aí, para que gastar milhões em craques e montar dois times?

P.S. No contexto de último fracasso no Fla-Flu, que jogador é esse Luiz Henrique. Falo com o crédito de quem comenta muito o futebol de base na Globo e elogia esse menino desde o sub-15. A matada de bola que ele executa no início da jogada do segundo gol do Fluminense é de cair o queixo. O saudoso narrador Jorge Curi diria que ele “escraviza a bola no terreno”. Luiz Henrique é um bálsamo para os olhos de quem ainda não esqueceu de como o futebol pode ser sublime.

Publicidade