Richarlyson encontra irmão Alecsandro na A3 e diz que se blindou contra preconceito

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Richarlyson encontra irmão Alecsandro na A3 e diz que se blindou contra preconceito
Richarlyson encontra irmão Alecsandro na A3 e diz que se blindou contra preconceito
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Multicampeão pelo São Paulo, veterano jogará ao lado do irmão na terceira divisão do Paulista com a missão de conduzir o Noroeste, time da cidade onde foi criado, ao acesso

Richarlyson encontra irmão Alecsandro na A3 e diz que se blindou contra preconceito
Richarlyson encontra irmão Alecsandro na A3 e diz que se blindou contra preconceito

Richarlyson Barbosa Felisbino se prepara para os últimos passos da vitoriosa carreira. Aos 38 anos, o volante multicampeão pelo São Paulo e com passagens pelo Atlético-MG e seleção brasileira, busca recolocar o Noroeste, time da cidade onde foi criado, de volta à elite do Campeonato Paulista. Para isso, terá a companhia do irmão Alecsandro, outro nome de grande destaque do futebol brasileiro nos últimos anos.

Em um bate-papo com o ge à beira do gramado do estádio Alfredo de Castilho, em Bauru, Richarlyson falou sobre tudo: passagem pelo São Paulo, racismo, preconceitos, paixão pelo esporte, amizade com a jogadora de vôlei Tifanny e sobre futebol.

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Muitas vezes perseguido dentro e fora de campo em virtude de especulações sobre sua orientação sexual, o jogador trata o assunto com naturalidade, provando que o futebol, ambiente notoriamente machista, o ensinou a maior das lições que um ser humano pode aprender: respeito.Várias vezes faltaram com o respeito comigo, mas isso não me incomoda. Isso fez com que crescesse não só profissionalmente, mas como ser humano, homem e atleta— Richarlyson.

Leia abaixo a entrevista completa com Richarlyson:

ge: A passagem pelo São Paulo foi o auge da sua carreira?
Richarlyson:
 – O São Paulo foi um momento onde ganhei mais títulos, foram cinco anos e quatro títulos. Mas tive uma fase muito boa no Atlético-MG, com um vice campeonato brasileiro (2012). Foi um crescimento absurdo de estar jogando com um cara que era fã, que foi o Ronaldinho Gaúcho. Ele me ensinou muitas coisas, não só sobre o futebol, mas sobre responsabilidade de pessoas, imagem, que você é exemplo para criança, aquelas pessoas que estão vindo atrás de você. Então, foram dois momentos que com certeza fizeram diferença. Mas o melhor momento, na minha concepção, foi 2007 com o São Paulo.

Richarlyson, do São Paulo, na Legends Cup — Foto: Van Campos/Estadão ConteúdoRicharlyson, do São Paulo, na Legends Cup — Foto: Van Campos/Estadão Conteúdo

geO que acha do movimento antirracismo no esporte?
Richarlyson: 
– É complicado em pleno século XXI ter de falar de racismo, de qualquer tipo de preconceito, ou de coisas que não são produtivas para melhoria, não só do esporte como do mundo. É chato e deselegante de certa forma. Evolução é acima de tudo quando as pessoas começarem a aprender que existe uma palavrinha que todo mundo fala, mas fala da boca para fora, que se chama respeito. É preciso respeitar o seu limite, seu espaço, suas vontades e os seus desejos.

ge: Você falou a palavra respeito. Acha que em algum momento faltou respeito com você?
Richarlyson:
 – Várias vezes, mas isso não me incomoda. É que isso é individual, não tenho como entrar na sua cabeça e colocar aquilo que é seu. Posso, sim, repudiar de certa forma com a minha palavra, minha verdade, caráter e personalidade, mas não posso obrigar você a fazer aquilo que eu quero. É opinião sua, mas a partir do momento que você ultrapassa o meu limite, aí sou obrigado a falar com você. Muitas vezes aconteceu isso, mas fez com que eu crescesse não só profissionalmente, mas como ser humano, como homem, como atleta.O maior preconceito mundial é a falta de empatia— Richarlyson.

– Você está jogando em um clube de grande nível um futebol de excelência, vestindo a camisa da seleção brasileira, e as pessoas estarem preocupadas com a sua vida pessoal, com a sua vida particular, alguma coisa está errada. Eles deveriam estar me aplaudindo por estar fazendo um grande campeonato, por estar de certa forma servindo a pátria e jogando para eles. Mas, não, eles preferiam falar de outras coisas bem mais supérfluas do que era a pauta do momento. Mas, na boa, nunca isso atrapalhou o meu objetivo, meus sonhos, tanto é que tenho uma carreira incrível. Com todo respeito e sem soberba nenhuma dentro do futebol, porque com certeza isso aí nunca me prejudicou.

Richarlyson, seleção brasileira — Foto: Reprodução/InstagramRicharlyson, seleção brasileira — Foto: Reprodução/Instagram

ge: Você se tornou amigo da Tifanny, primeira jogadora trans do vôlei brasileiro. Foi uma espécie de acolhimento por vê-la sofrer tantas críticas?
Richarlyson:
 – Na verdade, a gente se tornou amigo porque o ano passado eu trabalhei como sparring de ataque no Sesi-Bauru. Cheguei, dei um abraço nela e falei para ela independentemente daquilo que pensem, que falem, seja sempre você. Acho que o mais importante é você estar feliz com a sua pessoa, é você estar feliz com a sua decisão e, com certeza, isso vai ajudar não só na vida pessoal, mas também mostrar para as pessoas que de certa forma duvidam que você pode ser quem quiser dentro das leis.

– Elas vão insultar você, vão fazer de certa forma sair do seu equilíbrio para desestabilizar. Só você pode, mais ninguém, nunca espere, mesmo que seja da sua família, nunca espere. Espere sempre de você e vá correr atrás daquilo que você quer.

Richaryson mantém amizade com Tifanny Abreu, jogadora trans do Sesi-Bauru — Foto: Paulo Victor Vieira MarquesRicharyson mantém amizade com Tifanny Abreu, jogadora trans do Sesi-Bauru — Foto: Paulo Victor Vieira Marques

ge: Existe mais preconceito e problemas aqui dentro desse campo ou fora dele na sociedade? Como você analisa?
Richarlyson: 
– Acho que fora de campo é bem mais amplo, tem mais arestas para serem aparadas. É aquilo que a gente tava conversando, tem social, religioso, tem sexual, enfim, muitas coisas, mas acima de tudo o maior preconceito mundial se chama a falta de empatia. E isso é um discurso que todos falam, mas poucos vivem infelizmente no século XXI. A gente tem que debater assuntos que vêm desde 1900, 1800 e pouco, desde muito tempo que ainda não foram resolvidos. Então não sei se vai ser agora, se será na outra geração, mas espero que o mais rápido possível esses assuntos possam não ser mais pauta E, acima de tudo, a gente possa evoluir como ser humano e respeitando cada um na suas decisões.

geVocê se preocupa muito com o corpo, no aspecto físico. É o seu grande diferencial hoje
Richarlyson
: – Sempre me preocupei e agora ainda mais fazendo educação física, sei o quanto preciso do meu corpo, o quanto ele é tão importante para que tenha longevidade não só no futebol, mas na vida. Então, consigo mensurar o que é uma noite de sono perdida, o que é uma má alimentação, o que é um excesso de treinamento. Hoje tenho essa inteligência, mas antes de tudo isso, o meu diferencial foi sempre saber das minhas limitações.

– Até brinco: “Joguei no time que tinha Hernanes, Jorge Wagner, na seleção brasileira, onde tinham grande jogadores e jogadores melhores que eu tecnicamente, de forma inteligente e pensavam melhor que eu”. Qual o meu diferencial? O que teria de fazer para conseguir ficar próximo deles ou um pouco melhor? Era correr, lutar, era prestar atenção nos mínimos detalhes quando o treinador falava. Então, sempre me preocupei com as minhas limitações em saber como poderia me destacar em meio a grandes atletas. Foram algumas coisas que aprendi muito rápido que fizeram ter essa percepção e sair um pouco na frente dos outros. Saber que nosso corpo é o nosso instrumento de trabalho.

Richarlyson é praticante de crossfit — Foto: Reprodução/Instagram/@boxptbrasilRicharlyson é praticante de crossfit — Foto: Reprodução/Instagram/@boxptbrasil

ge: Além do futebol, você pratica crossfit e vôlei. É viciado em esporte?
Richarlyson
: – Tem vez que até extrapolo, não vou mentir. Um tempo atrás, passando por um ortomolecular, ele deu um puxão na orelha e falou que eu poderia ter uma lesão séria por estar treinando além da conta. É difícil me segurar em casa. Treinei aqui, mas se você me chamar à tarde para fazer um vôlei… Bora! Mas claro que tenho que ter uma sabedoria maior porque a idade vem chegando, nós somos sabedores que é da ciência da vida quanto mais velho você fica, com menos força você fica. Você precisa de mais tempo de recuperação, enfim. Algumas coisas que têm me ajudado, grandes profissionais estão em volta para que eu possa continuar no nível de excelência, mas não consigo ficar parado. É só me chamar que eu vou.

geAos 38 anos e com uma carreira vitoriosa, o acesso com o Noroeste é o maior desafio da sua carreira?
Richarlyson:
 – Desde que cheguei aqui a gente planejou este tão sonhado acesso, mas sempre soube que era difícil. Mas é um ano que a gente mais uma vez está se reforçando e o plantel ficou praticamente coeso com o do ano passado. Então, isso faz diferença porque vamos estar um conhecendo o outro. E com certeza a gente sabe da dificuldade do campeonato, mas o pensamento é o acesso, o objetivo maior. Tomara que este ano não escape.https://3ead9af9c7a60ff427bf3c6d290100cf.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

geComo será jogar ao lado do seu irmão Alecsandro?
Richarlyson: 
– Primeiro é sempre um privilégio, ele é um ano e dez meses mais velho do que eu e foi um espelho na minha carreira. Claro que a gente conseguiu chegar no nosso nível máximo de excelência praticamente juntos, mas é um cara que sempre me orientou, colocou as coisas de forma verdadeira e sincera, principalmente dentro do futebol.

– A gente sabe que existem as pessoas do bem, mas também existem as pessoas do mal. Novamente podendo estar trabalhando seria um sonho, não só de jogar novamente. Um sonho de poder estar na nossa cidade, poder fazer história no clube onde meu pai fez história. Então, seria perfeito. Um camisa nove não só como meu irmão, mas sem demagogia, goleador como ele é, onde passou fez história como o goleador, com certeza não só eu ficaria feliz, mas o Noroeste e o povo bauruense.

Richarlyson, Alecsandro e o pai Lela: família engajada pelo Noroeste — Foto: Bruno Freitas/EC Noroeste

Richarlyson, Alecsandro e o pai Lela: família engajada pelo Noroeste — Foto: Bruno Freitas/EC Noroeste

geComo seria conquistar o acesso com o Noroeste, time onde seu pai foi ídolo?
Richarlyson
: – Chega até arrepiar. Existe uma história por trás disso. O meu pai é de Bauru, meu irmão também é bauruense. Não sou nascido, mas me considero bauruense. Meu pai fez uma história tão bonita dentro deste clube disputando campeonatos importantes como o Brasileiro, Paulista da primeira divisão, então ficaria muito feliz.

– Tudo aquilo que o Noroeste fez por mim, acolhimento à minha família, pelo carinho que a gente tem no dia dia aqui na cidade, é claro que não é tão fácil assim, mas sempre disse que vou lutar e tendo mais uma pessoa da família de sangue atrás dessa história tão bonita que meu pai fez, com certeza aumenta o desejo e a responsabilidade. Seria mágico não só para mim, mas para a minha família se a gente pudesse fazer essa história se concretizar no Noroeste. Com certeza encerraria a minha história dentro do futebol de maneira maravilhosa.

ge: Você já se imaginou aqui (estádio do Noroeste) comemorando o acesso com o seu irmão, abraçando o seu pai na arquibancada? Já passou esse filme na sua cabeça?
Richarlyson:
 – Claro, já passaram vários filmes. É incrível porque eu entro aqui nesse estádio e é muito história que vem, mas são passado, e estou aqui no Noroeste pela terceira vez para tentar fazer uma nova história, e com certeza é isso que vou tentar fazer. A responsabilidade aumenta. A gente sabe que vai ser cobrado por tudo aquilo que representa para o futebol brasileiro e mundial, mas, acima de tudo, sabe que vai dar sempre o nosso melhor em benefício do objetivo maior, que é o grupo, que é esse acesso tão sonhado.

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