Gabigol, do Flamengo, vendeu R$ 15 milhões só de chinelos em um ano

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MÁQUINA DO ESPORTE: Por Erich Beting

Gabriel Barbosa, o Gabigol, colhe há dois anos os frutos de sua melhor fase dentro de campo. Artilheiro e campeão pelo Flamengo, convocado frequentemente para a seleção brasileira, o atacante é também um colosso fora de campo.

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Só neste começo de mês, Gabigol já anunciou sua loja oficial em parceria com o Mercado Livre, renovou um acordo milionário com as sandálias Kenner, pediu a própria música que havia acabado de lançar no “Fantástico” após marcar três gols e, agora, prepara o lançamento de uma animação voltada para o público infantil.

Na mesma proporção em que acumula gols com a camisa do Flamengo, o atacante prolifera no ramo dos negócios. Tudo fruto de um trabalho paralelo que acompanha Gabi, como é apelidado o atacante, e envolve o staff que está junto dele desde o começo da carreira, ainda nas categorias de base do Santos.

A agência 4ComM é responsável por cuidar dos negócios de Gabi. O fundador Junior Pedroso é quem trata dos contratos com os clubes, enquanto Marina Nishitani, diretora de marketing, é responsável pelos acordos comerciais. Já Kaue Freitas, diretor de comunicação, gerencia a agenda de relações públicas.

A reportagem da Máquina do Esporte conversou na última semana com Marina e Kaue. A executiva estava iniciando um período de férias após fechar o acordo com a Kenner e lançar a loja com o Mercado Livre. Para ela, os dois negócios, junto da animação que deve sair em breve, mostram o quanto o produto “Gabigol” é bem aceito no mercado.

“Claro que a performance dentro de campo endossa o que a gente faz fora dele, mas acredito que esse poder de ativar a imagem do atleta é muito forte. Nos Estados Unidos, o pessoal faz isso de forma muito grande. Aqui ainda está começando”, afirmou Marina.

A executiva é quem lidera as negociações com a marca de Gabriel, mas, segundo ela, nenhuma decisão é tomada sem a participação e o aval da família. Para exemplificar a relação, Marina contou que o lançamento dos quadros comemorativos da conquista da Libertadores de 2019 foi feito após o aval dos pais e de Gabriel, mesmo com a mãe não acreditando no projeto.

“Ela dizia que não venderia nada. Em 24h, os quadros estavam esgotados”, relembrou.

O sucesso nos negócios, para ela, tem a ver também com o estilo irreverente de Gabigol.

“Tem muito o input dele no que faz e tem muita verdade no que faz. A campanha com a Kenner, por exemplo, é baseada no ‘redefina‘, ela fala dos haters. A gente sempre tenta trilhar por um caminho que faça sentido. Não posso botar o Gabriel para fazer propaganda de algodão doce”, explicou.

O negócio com a Kenner é um exemplo. A linha de sandálias com a assinatura do atacante vendeu surpreendentes R$ 15 milhões no primeiro ano de parceria. Cerca de 5% a 10% do faturamento deve chegar ao atacante. Agora, o acordo foi renovado. E a expectativa é ainda maior, especialmente depois de o Mercado Livre decidir montar sua primeira loja com um atleta. O negócio, aliás, surgiu de um quase “problema” pelo uso da imagem do atacante.

Quando o acordo entre Flamengo e Mercado Livre foi anunciado, a marca de varejo usou o gesto de Gabigol para comunicar o acerto. O staff do atacante não chegou a ser consultado com antecedência para fazer a ação, como costuma ser feito. Quando Gabigol soube o que teria de gravar para o clube, ligou rapidamente para Marina e informou o que seria feito.

“A gente sempre busca ser audacioso, diferente, ousado. Tirando da personalidade dele. No caso do Mercado Livre, o Flamengo usou a imagem dele quase sem avisar antes. O Flamengo pode, mas geralmente precisa ser avisado antes. Na mesma hora em que aventamos a ideia (de criar a loja de Gabigol), o Mercado Livre veio atrás da gente”, contou Marina.

A audácia era buscar um projeto inédito com a grande varejista on-line. Como havia a “dívida” criada pela ação de anúncio do patrocínio, Marina disse que era “o momento de tirar o projeto da loja do Gabi do papel”.

O próprio atacante mostra ter o faro apurado para os negócios. No dia 30 de agosto, uma segunda-feira, estava previsto o lançamento da música “Sei Lá”, que tem Gabigol como um dos cantores. No dia anterior, o atacante fez três gols contra o Santos pelo Campeonato Brasileiro. Assim, ele ganhou o “direito” de pedir uma música para ser passada durante o programa dominical “Fantástico”, da TV Globo. Na hora, o atacante autopromoveu o lançamento da música, que só iria ao ar no dia seguinte, no YouTube e no Spotify. Segundo Kaue Freitas, tudo saiu da cabeça do jogador, que não perdeu a oportunidade.

“O Gabriel é diferente, tem o jeito dele. Ele não tem meias palavras. Ele vai lá e faz, ele é antenado. Além disso, ele tem uma confiança para que tudo dê certo. Os três gols foram um exemplo. Ele não contou nada para ninguém. Aproveitou e fez”, contou o executivo.

Atualmente, já são mais de 30 produtos licenciados com a marca de Gabigol. Nas próximas semanas, a Blue Man, famosa grife de roupas para natação do Rio de Janeiro, deve apresentar a linha criada em parceria com o jogador. A expectativa é de vender tão bem quanto a Kenner.

O sucesso nos negócios beneficia também o Flamengo, que por contrato fica com uma porcentagem sobre os negócios gerados pelo jogador. Mas o que vai acontecer se Gabigol voltar a tentar o sonho de se firmar na Europa?

“Não é uma decisão que a gente vá tomar, ela parte da família. Todo novo licenciado pergunta se ele vai embora. Ele já é o príncipe. Se eu fosse investir, como licenciado, eu faria o acordo. A marca dele é permanente, já está lá. Obviamente a gente adora que ele continue no Flamengo. Mas a gente não tem o poder de decidir”, afirmou Marina Nishitani, para completar:

“Hoje ele tem duas propostas para ser embaixador de marcas internacionais. O que mostra que os países europeus estão olhando para uma possível transferência”.

Há limite, então, para trabalhar a marca de Gabigol?

“O limite são as entregas dele. O tempo dele é limitado. Mas, para a gente, o céu é o limite, desde que não dependa da disponibilidade dele. Um exemplo é que vamos lançar ainda este ano um desenho animado do Gabigolzinho, com uma história legal, educativa”, revelou Marina.

Para a executiva, o sucesso de Gabigol nos negócios mostra que o mercado de licenciamento “está acordando para o futebol”.

“O mercado aqui no Brasil não corresponde nem a 10% do que é nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Acho que ele vai aos poucos aumentar. Tem potencial para isso. O Hulk, por exemplo, é um cara que tem ótimo potencial. É famoso no mundo todo. Mas é preciso achar o foco, o nicho e desenvolver uma imagem, um personagem”, finalizou a executiva, que já começou a olhar de que forma pode ajudar outros atletas a trabalharem suas imagens para além do campo.

“Nos Estados Unidos, existe a NFLPA (National Football League Players Association). É algo que eu sou louca para fazer aqui no Brasil. É uma forma de pegar vários jogadores que têm um apelo comercial, mas que têm mais força vendendo conjuntamente a imagem”, exemplificou a executiva.

Para quem conseguiu transformar um dos principais jogadores de futebol do Brasil em uma máquina de fazer negócios, esse sonho não parece ser algo muito difícil de ser realizado.

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